Passei algumas horas diante da folha em branco antes de pensar em uma boa forma de começar este texto. E, devo confessar, acho que ainda não encontre. Logan me derrubou. Me deixou no chão e pisou no meu pescoço para garantir que eu não iria me levantar. Sai do cinema tomado por uma sensação que não sei descrever nem nominar, mas que já havia sentido antes, umas poucas (e boas) vezes.

Antes de qualquer coisa, um bom filme precisa despertar sentimentos, sejam eles quais forem. Quando você sai do cinema diferente da forma que entrou, o diretor, o roteirista, os atores e toda a equipe cumpriram bem suas funções. É exatamente isso que Logan faz e é por isso que ele é um ótimo filme. Ele nos transforma.

Muito mais do que explosões

Confesso que nunca achei que faria uma crítica com pontos positivos a um filme do Wolverine. Não que odeie o personagem. Na verdade, é justamente por gostar muito do Carcaju que digo isso. Seu histórico de filmes ruins, a começar pela própria trilogia clássica dos X-Men, passando pelos seus dois filmes solo me fizeram desistir de querer ver mais um filme com o personagem. Sequer me dei ao trabalho de ir aí cinema assistir Wolverine: Imortal.

Mas o que aconteceu foi que, um dia, revirando o YouTube, dei de cara com um trailer fantástico embalado por um sucesso do Johnny Cash. Foi como se eu tivesse sido abduzido. O clima que o trailer passou me fez querer ver o filme. E agora, alguns meses depois, sento aqui para falar que o trailer era completamente honesto.

O longa dirigido e roteirizado por James Mangold já começa de forma visceral, com uma ótima cena de luta, criada exclusivamente para pontuar o que veremos a partir dali. Somos apresentados ao um Wolverine velho, amargurado, cansado do mundo e dos rumos que sua vida tomou. Em um futuro (semi)pós-apocalíptico, ele trabalha como chofer, ao mesmo tempo em que cuida de um velho é perturbado Professor Xavier. Nesse cenário também se encontra, Caliban, outrora inimigo de Logan e agora o mais próximo que ele consegue ter de um amigo.

Caliba: antes inimigo, agora aliado
Caliban: antes inimigo, agora aliado

Nesse momento, uma das grandes qualidades do filme já se torna visível: a fotografia trabalha para ajudar a construir o clima que a história pede. Os tons amarelados mostram a desolação que a vida do personagem tomou. Os planos mais abertos quase não existem. Sempre vemos o rosto de Logan bem de perto, com suas marcas e suas cicatrizes que o fator de Cura já não pode mais reparar. E quando o plano se abre, estamos diante de um panorama triste, mortal é decadente, como a caixa d’água que serve de lar para Xavier ou o cemitério onde uma mulher misteriosa implora a Logan por ajuda.

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À luz também trabalha de forma interessante. Nas primeiras cenas em que vemos Xavier, a luz e forte, quase estourada, gerando certo desconforto. Isso muda quando ele passa a recobrar sua consciência. E também é uma boa analogia ao perigo, uma vez que Caliban mora ali com eles e ele é intolerante à luz.

A história sofre uma grande virada quando uma mulher desesperada passa a segui Logan por todos os cantos, clamando por ajuda. E diante da recusa inicial em ajudar, podemos ver que o que ele vem passando e sua forma de encarar o mundo. Em sua cabeça, suas atitudes heroicas só serviram para fazer aqueles que amava sofrerem, já que todos os seus amigos estão mortos.

Ainda assim, o espírito heroico que o persegue fala mais alto. Assim conhecemos a pequena X-23, uma garota calada, mas com muita personalidade, que se transforma numa espécie de pupila de Logan. E, conforme a história transcorre, descobrimos que ela tem muito mais em comum com ele do que podíamos imaginar.

Logan carrega X-23
Logan carrega X-23

O Veredito

Logan não é só um filme de super-herói. Não se prende nos clichês nem. O maniqueísmo tradicional. Fala de amor, paternidade, abandono e depressão de uma forma única é praticamente nunca antes vista.

Além disso, consegue ser um ótimo filme para quem ama o personagem e para quem nunca ouviu falar dele. Agrada quem amou e quem odiou as trilogias de X-Men nos cinemas, pois consegue abortá-las de forma magistral.

E, acima de tudo, termina da única forma que deveria terminar. Fecha um ciclo ao mesmo tempo em que abre um novo. Uma aula de cinema e roteiro para aqueles que acham que para um filme de herói funcionar, só precisa de explosões e garotas de uniformes colados.


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